Confira, a seguir, na íntegra artigo assinado pelos deputados Bruno Araújo,Gustavo Fruet e Raul Henry, publicado nesta segunda(07/05) na Folha de São Paulo:
TENDÊNCIAS/DEBATES
ALTERNATIVAS PARA A SEGURANÇA PÚBLICA
A lição da Colômbia
GUSTAVO FRUET, BRUNO ARAÚJO e RAUL HENRY
A Colômbia ousou enfrentar a violência urbana e se armou com o essencial: decisão política, seriedade e continuidade
NOS ÚLTIMOS cinco anos, uma mudança radical ocorreu nas duas principais cidades da Colômbia, Bogotá e Medellín. Antes conflagradas e aparentemente sem saída ante a insegurança, reduziram expressivamente os índices de criminalidade e investiram na promoção da paz a partir de uma firme decisão.
Integramos missão oficial de parlamentares que foi à Colômbia conhecer programas da área de segurança. Com todo o cuidado para não mistificá-los, permite-se concluir que há muitas lições a tirar da experiência colombiana e, mesmo considerando as diferenças entre os países, não faria mal ao Brasil dedicar olhar mais atento ao que fazem nossos vizinhos.
O que primeiro impressiona é a redução nos índices de criminalidade. A taxa de homicídios em Medellín, que em 1991 chegou a 381/100 mil habitantes, caiu em 2006 para 28/100 mil. São mais de 8.000 vidas poupadas.
O ponto de partida foi o fundo do poço ao qual a Colômbia chegou no fim do século passado. Acuados pela insegurança, governo e sociedade passaram à ação, rompendo com o ciclo natural da violência e agindo para que os jovens, especialmente, deixassem de ver as atividades criminosas como alternativa de vida.
Em Medellín, o processo começou em 1993, com a criação de uma oficina de paz e convivência. Recursos do BID e da prefeitura financiaram um programa que inclui acordos de paz com milícias e pactos de convivência com grupos violentos de bairros onde a polícia não ousava entrar. São jovens cooptados pelo narcotráfico, pela guerrilha ou por grupos paramilitares que, aos poucos, vão sendo “desmobilizados”, na expressão local.
O dia em que o primeiro desses grupos depôs as armas teve caráter de data cívica na Colômbia. Era um recomeço, um passo simbólico para a recuperação do orgulho colombiano.
O esforço para promover o retorno dos “desmobilizados” à vida civil e à legalidade é suportado por uma estrutura que inclui educação, assistência psicossocial e inserção no mercado de trabalho. É um processo coordenado pelo governo central, com ativa participação do município.
Paralelamente, ocorre um programa de urbanização de áreas degradadas. Regiões periféricas onde o Estado se ausentou por muito tempo passaram por transformações impressionantes, com a extensão de modernos sistemas de transporte, a criação de pontos de encontro para a comunidade, a instalação de casas de Justiça e a construção de calçadas e alamedas que favorecem a convivência. Além disso, há programas de microcrédito para financiar pequenos negócios.
O policiamento ostensivo é outro pilar. Na Colômbia, há uma polícia única, subordinada ao governo central, com efetivo de 400 mil. O Exército, com 300 mil integrantes, atua no combate ao narcotráfico.
A população aceita as revistas a que está sujeita a qualquer hora e em qualquer lugar e as medidas restritivas ao funcionamento de bares e porte de armas. Isso reforça a sensação de segurança nas ruas das grandes cidades, onde até há pouco tempo todos circulavam com medo e sem a certeza de que voltariam para casa vivos.
Há ações polêmicas, como a extradição de mais de 400 colombianos aos EUA para responder a processos e cumprir penas. E também forte investimento em tecnologia. Um sistema de georreferenciamento dá confiabilidade aos dados. Agentes comunitários, taxistas e seguranças privados contribuem para alimentar o sistema de informações. No total, a Colômbia investe em segurança cerca de 4,5% do PIB, e recebe recursos externos, como dos EUA, que enviam US$ 600 milhões/ano.
Mas o que mais chama a atenção é a determinação de subtrair o caráter ideológico e dar permanência ao combate ao crime. Em Medellín, o programa “Paz e Reconciliação” ganhou status de permanente no ano passado, de forma a garantir que transcenda governos e não fique sujeito a situações conjunturais. Registre-se também o surgimento de novas lideranças, nascidas fora do eixo liberais-conservadores que há anos domina a política nacional, destacando-se os prefeitos de Bogotá e Medellín, que são lideranças nacionais.
A Colômbia tem em relação ao Brasil diferenças que vão além do tamanho e do perfil econômico. É grande exportador de entorpecentes, mas não grande consumidor. Ressalvadas as diferenças, a lição que nos oferece é a determinação para enfrentar um problema que vinha minando as estruturas sociais. A Colômbia ousou enfrentar a violência urbana e se armou com o essencial: decisão política, seriedade e continuidade.
GUSTAVO FRUET , 44, (PSDB-PR), BRUNO CAVALCANTI DE ARAÚJO , 35, (PSDB-PE) e RAUL JEAN LOUIS HENRY JÚNIOR , 42, (PMDB-PE) são deputados federais.
Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião do jornal. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros e mundiais e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo. debates@uol.com.br
Coloque esse link no seu blog, site, twitter ou orkut!
Coloque no seu Twitter esse post!
Receba no Email
Receba no Email atualizções do site!
Adicione no Orkut
Entre na nossa comunidade!
Assine no RSS
Assine e receba o RSS Feed!
Baixe em PDF essa notícia.
Envie por e-mail para um amigo!