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O Fim dos Racionamentos
por Bruno Araújo
O anúncio do fim do presente racionamento de energia elétrica foi um alívio para a população. O alívio, no entanto, não foi menor dentro do próprio governo. Afinal, obrigar "o país da energia elétrica abundante e barata" ao mais abrangente racionamento de sua história não deixou de ser um tanto constrangedor. Mas choveu, os reservatórios começam se normalizar e o fantasma do racionamento está sendo exorcizado.
A questão é, por quanto tempo? Os reservatórios já estiveram bem mais cheios do que agora e se esvaziaram, o que pode perfeitamente repetir-se. Assim, o momento é de relativa tranqüilidade, mas jamais de complacência. É mister que se busque uma nova fonte de energia elétrica para o Brasil e, em particular, para o Nordeste. Isso, no entanto, parece muito difícil.
Na década de 50, quando a chamada "primeira etapa" da usina da Chesf em Paulo Afonso lançava os primeiros quilowatts da redenção do Nordeste, ensinava-se nas escolas que o Brasil tinha energia para alimentar o mundo. Era o tempo de Três Marias e Furnas. Depois viriam Boa Esperança, Itaipu, Tucuruí, Xingó e tantas outras. Acreditava-se que a aparente fonte inesgotável que supria o São Francisco, o Paraná e o todo-poderoso Amazonas garantiria um fornecimento abundante e eterno, de forma que nada deveria pôr em risco o programa hidroelétrico. Água, no Brasil, antes de tudo tinha de dar choque.
Diante desse paradigma, considerações ambientais foram literalmente por água abaixo. Cidades desapareceram junto com terras produtivas, virgens ou não. Nem o salto Guaíra - as mundialmente famosas Sete Quedas - escapou à sanha dos "barrageiros". A decantada vocação hidroelétrica nacional foi levada ao extremo em projetos como o de Balbina, no Amazonas, ou o de Serra da Mesa, no Centro-Oeste, em que enormes áreas foram inundadas (somando-se as duas, vinte municípios do Recife) para se produzir relativamente ínfimas quantidades de energia.
Outras opções de produção de energia elétrica eram logo esmagadas pelo "rolo compressor" hidroelétrico. No final das contas, hoje finalmente se reconhece, a crise energética que assustou o Brasil foi resultado do erro proverbial de se pôr todos os ovos numa mesma cesta. Dois terços do Brasil esperavam pelas chuvas, que não vieram. No antigo Egito, a vida da nação revolvia em torno das periódicas enchentes do rio Nilo, que muitas vezes falhavam, obrigando o faraó a apelar para preces e magias. É impensável que os líderes de uma nação moderna venham, quarenta séculos mais tarde, recorrer aos mesmos expedientes.
Há menos de três décadas um programa nuclear iniciava o Brasil numa ousada diversificação. Vilipendiado pela associação com um regime tachado de impopular, do ambicioso programa de construção de oito usinas só uma, Angra 2, ficou pronta - e há menos de dois anos. Ela e Angra 1, anterior ao programa, hoje respondem por uns 40% das necessidades do Estado do Rio de Janeiro. O apelido de "usinas vagalumes" sempre foi injusto, e agora mais ainda.
Num artigo publicado em jornal há mais de três anos, o Prof. Heldio Villar antevia o colapso do fornecimento de energia elétrica ao Nordeste e declarava que "oito centrais do tipo Angra 2, que caberiam todas numa área similar à do município do Recife, forneceriam tanta energia como todo o sistema Chesf". O artigo aparentemente não foi levado a sério, mas eu próprio pude testemunhar a veracidade dessa afirmativa: numa área equivalente à do bairro do Pina, à margem da estrada Rio-Santos, duas usinas nucleares têm uma capacidade instalada que é o dobro da de Sobradinho, em cujo lago cabe a Região Metropolitana do Recife.
A opção nuclear, mais do que nunca, precisa ser abraçada no Brasil. No mundo, ela já pode ser considerada trivial, respondendo por 18% da demanda elétrica (na França, mais de 75%). Em manifestações recentes, o Presidente Fernando Henrique e o Vice-Presidente Marco Maciel defenderam as centrais nucleares como solução da crise energética no Nordeste. Partindo do Vice-Presidente, isso não causa espanto. Afinal, ele é o grande mentor do Centro Regional de Ciências Nucleares, ora em implantação no Recife.
E porque no Nordeste? Talvez porque está em jazidas nordestinas o urânio do Brasil. Talvez porque seja a região de menor potencial hidroelétrico. Talvez, com mais razão, devido ao trabalho de divulgação das aplicações nucleares realizado pelo Centro Regional. A população do Nordeste já convive com a idéia de que essas aplicações salvam vidas, ajudam a indústria e geram empregos. Vai ver também que elas têm o potencial de fazer do século XXI um tempo livre de racionamentos.
Bruno Araújo é deputado estadual pelo PSDB
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