Desde a redemocratização, há 20 anos, o Brasil tem praticado a democracia sem maiores percalços – e até o maior deles foi bem resolvido, no impeachment sem traumas ou quebras institucionais. Além disso, a adoção da urna eletrônica representou um salto de credibilidade que confere hoje às eleições brasileiras um selo de segurança admirado no mundo inteiro, por sua simplicidade e eficiência.
O voto como hábito, portanto, já está em nós. Mesmo que a obrigatoriedade do ato cívico seja posta em questão, o fato é que a vida democrática brasileira sai fortalecida após cada estação eleitoral. Há toda uma dinâmica que é favorecida, da movimentação econômica proporcionada pelas campanhas até a mobilização social provocada pelo legítimo embate de propostas e idéias.
Mas antes de chegar à boca da urna, o voto deve passar pelo crivo da ética. A época da troca de votos por favores, num negócio em que o eleitor sai sempre lesado, não pode ser mais a nossa época. A nação está politicamente madura para não absorver – nem absolver – com naturalidade o comércio eleitoreiro que burla o cidadão e afronta os valores democráticos.
Desta forma, é oportuníssima a iniciativa do Comitê da Ação pela Cidadania e pela Vida, organização atuante fundada pelo sociólogo Herbert de Souza, o saudoso Betinho. Em Pernambuco, com o apoio do Governo Jarbas Vasconcelos, foram impressas cartilhas de orientação ao voto ético, que serão distribuídas em todo o Estado. A campanha busca despertar no eleitor a atenção para com os mercadores do voto, candidatos que se aproveitam da boa-fé do povo para tentar se eleger.
A campanha pelo voto ético é de conscientização, sim, junto à população, mas serve também como alerta aos candidatos aventureiros: a sociedade está de olho naqueles que prefeririam não disputar a escolha popular e não depender de um instrumento democrático para exercer – representativamente, é bom lembrar – o poder.
O Governo de Pernambuco acerta duplamente ao aderir à campanha da Ação da Cidadania. Pois a cédula do voto ético possui dois lados: numa face, o eleitor não se deixa levar na conversa fiada dos maus políticos, e na outra, os políticos precisam puxar o cordão do comportamento ético, fazendo campanhas limpas, com respeito, tanto pelos eleitores como pelos seus eventuais adversários. Eleição não é guerra, afinal, é cidadania em ação, como diria Betinho.
Atitudes desabonadoras como a compra de votos ou o uso da violência – quando se confunde militância com milícia – não condizem com o estágio atual da democracia em nosso país. Aqui pertinho, em Amaraji, semanas atrás, o prefeito e candidato à reeleição Jânio Gouveia da Silva foi agredido em seu direito de expressão, logo no começo da campanha. Um carro de som a seu uso foi queimado, sendo os principais suspeitos possíveis simpatizantes de um candidato oponente. Trata-se de algo inaceitável e, como crime político, há de ser punido com firmeza exemplar, para que episódios similares não venham a acontecer.
E mais, o incentivo a tais atos, quando reconhecida a autoria política, deve ser amplamente divulgado, a fim de que o eleitorado possa rechaçá-lo, retirando-lhe a tempo, e com veemência, a confiança do voto.
A campanha pelo voto ético é um empreendimento formador de cidadania, e deve ser assumido pelo poder público, pelos candidatos, pela mídia e por todos que acreditam na democracia.
Bruno Araújo é deputado estadual pelo PSDB
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